23/05/2017

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Os senhores da guerra acumulam fortunas na Síria



Já faz sete anos que a economia síria se consome sob o peso da guerra. O Banco Mundial estima em 886,5 bilhões de reais os prejuízos decorrentes do conflito. E, entretanto, nas duas beiradas de uma economia murcha surgem os senhores da guerra. Soldados regulares, paramilitares, milicianos insurgentes e também comerciantes comuns acumulam pequenas fortunas nas fronteiras, nos cercos e inclusive em passagens subterrâneas graças ao contrabando de produtos básicos, de medicamentos e do tráfico humano. Enriquecidos à custa da miséria alheia, os novos senhores da guerra desdenham a paz para perpetuar uma luta lucrativa.
“Se um quilo de arroz custa um euro [3,65 reais] em Damasco, em Duma pagamos 25”, queixa-se Rima Hamid, que há dois anos conseguiu escapar do cerco na periferia nordeste de Damasco, e hoje é refugiada no Líbano. Assim como muitas de suas vizinhas enviuvadas na guerra, Hamid teve que vender barato as suas poucas joias de ouro para alimentar os filhos pequenos. O comerciante que levou arroz de Damasco naquele dia pagou uma primeira propina no controle oficial, e uma segunda no controle rebelde. Somou então 30% de lucro, e Hamid pagou a fatura. Em poucas horas, esse mesmo comerciante revendia o ouro da viúva nos mercados de Damasco pelo dobro do preço. Negócio redondo.
Mais de um milhão de pessoas se encontram retidas detrás dos 39 cercos do país. O Instituto do Oriente Médio responsabiliza as tropas regulares sírias por 78% dos sítios, o Estado Islâmico por 19%, e outros grupos armados por 3%. O caso mais representativo da economia dos cercos é o passo de Wafidin, batizado como o passo do milhão, que era em 2014 o único acesso à sitiada Ghouta, na periferia ocidental de Damasco. A dupla transposição das fileiras governamentais e rebeldes gerava até um milhão de libras sírias (cerca de 18.000 reais, pelo câmbio atual) em subornos por hora, até 3.700 reais por caminhão.
Estima-se que 60% da população ativa do pré-guerra tenham perdido seus empregos e sejam vítimas da hiperinflação, por isso a sobrevivência das famílias depende cada vez mais das remessas – um influxo estimado em 5,2 bilhões de reais pelo Banco Mundial em 2015. De novo, o extinto sistema bancário nas zonas insurgentes foi substituído por ávidos comerciantes transformados em prestamistas. “Meu irmão em Istambul recebe o dinheiro do Ocidente via Western Union. Quando me dá o OK, eu entrego às famílias aqui o equivalente em libras sírias, por uma comissão de 5%. Outros cobram até 20%”, diz ao telefone, como quem se desculpa, o prestamista Khaled, que atua na periferia sul de Aleppo.
“Embora sejam cifras muito gerais, a economia informal responde por 50% na Síria”, calcula, numa conversa por email, Ferdinand Arslanian, pesquisador da Universidade de St. Andrews, na Escócia. De todos os negócios, a revenda de eletrodomésticos é o menos lucrativo, já que a falta de eletricidade os transformou em tranqueiras inúteis. Nas lojas de Damasco, geladeiras, lavadoras de roupa e aquecedores elétricos se amontoam atrás de uma grande variedade de móveis. “Bitfaresh [catar a mobília, um neologismo árabe], o novo verbo criado durante a guerra para quando membros da Defesa Nacional [paramilitares pagos pelo Governo] saqueiam cidades recém-liberadas!”, diz com indignação a dona de casa Meriam, de Damasco, por telefone. Essa mesma pilhagem, feita pelos rebeldes, acontece nas zonas insurgentes.
Com o recrudescimento dos combates, o passo do milhão foi fechado, e os milicianos optaram por cavar túneis através dos quais se abastecem com armas. Atraídos pelo botim, os diferentes grupos armados transferiram sua guerra intestina para o subsolo, disputando o monopólio dos túneis e, consequentemente, o suculento contrabando de alimentos e outros produtos. Algo que provocou mais de um protesto dos cidadãos, fartos de verem sua miséria gerar novos-ricos. “Quando há trégua, os preços baixam. Quando os combates se reiniciam, sobem. Aconteça o que acontecer, continuamos morrendo de fome, e eles continuam fazendo caixa”, acrescenta Rula, uma irmã de Hamid ainda retida em Duma, via mensagem de voz.
Contrabando de fronteiras
Tanto o Líbano como a Jordânia passaram o cadeado nas suas fronteiras, ao passo que o EI controla a do Iraque. Hoje, são os contrabandistas instalados na fronteira norte e nordeste, com a Turquia, que fazem fortuna com a guerra. Em Idlib, última província nas mãos insurgentes e fronteiriça com a Turquia, os salafistas do grupo Ahrar el Sham e os jihadistas do Fattah al Sham (antiga filial da Al Qaeda) estão no comando. Segundo voluntários e ativistas locais, são eles que administram a ajuda humanitária que entra, fazendo uma distribuição desigual em beneficio de familiares e amigos.
Amparados pelo caos, voltam à ordem do dia os sequestros-relâmpago e as máfias que controlam os geradores privados, as quais nem os Comitês Locais de Oposição conseguem controlar. “Compram os geradores na Turquia por 2.000 euros [7.300 reais] e depois nos cobram entre dois e quatro euros [7,30 a 14,60 reais] por ampere”, murmura, via Whatsapp, a deslocada Nisrine, mãe de dois filhos, que deixa 30% da sua renda mensal no custeio de seis horas diárias de eletricidade.
Embora cheguem caminhões da Turquia, não sai nem um só refugiado. Algo que favorece os traficantes, que embolsam entre 1.500 e 4.500 reais por pessoa atravessada ilegalmente. É verdade que por esta fronteira já saíram faz tempo os empresários e trabalhadores sírios arrastando consigo máquinas e equipamentos. Segundo cifras do Fundo Monetário Internacional, os sírios respondiam em 2014 por 26% das novas empresas abertas na Turquia. O que explica que as exportações turcas para a Síria tenham recuperado o nível de antes da guerra, superando os 5,8 bilhões de reais por ano.
Reportagem de Natalia Sancha
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/18/internacional/1495122148_040592.html
foto:https://www.nytimes.com/2016/08/27/world/middleeast/syria-civil-war-why-get-worse.html?_r=0

Nada de cremação ou enterro: opção por dissolver corpo após a morte ganha adeptos

Robert J Klink passou sua vida perto d'água. Ele cresceu nos anos 1950, no South Long Lake, em Minnesota, Estado americano conhecido como a terra dos 10 mil lagos. Caçar e pescar nas margens desses reservatórios naturais era a paixão de sua vida.
Pouco antes da morte dele por câncer do cólon e do fígado, em março, sua esposa Judi Olmsted foi a uma funerária local - a Bradshaw Celebration of Life Center - e disse que seu marido queria ser cremado.
No estabelecimento, ofereceram dois tipos de cremação: a tradicional, com fogo, e um novo tipo, que usa água no processo. Um panfleto explicava que era uma "cremação alternativa e ecológica" que usava uma solução alcalina feita a partir de hidróxido de potássio.
"De início, pensei 'bem, eu não sei nada sobre isso'", disse Olmsted. "Mas quanto mais eu pensava sobre aquilo, mais eu acreditava que era a melhor opção."

Impacto ambiental

Quando somos enterrados, usamos os recursos do planeta uma última vez - com a madeira do caixão, o algodão do forro, a pedra da lápide, além de outros recursos.
A cremação também tem impacto ambiental. Para queimar um corpo, o equipamento crematório produz calor suficiente para aquecer uma casa durante uma semana no inverno congelante do Minnesota.
A funerária local é um dos 14 estabelecimentos do mundo a oferecer a opção "verde" - acredita-se que a hidrólise alcalina é ambientalmente mais correta do que a cremação tradicional.
Eles oferecem ambos os serviços pelo mesmo preço, mas dizem que o novo tipo de cremação revelou-se um sucesso inesperado. Dos clientes que optam por não enterrar seu familiar, metade do total, 80% preferem a hidrólise alcalina.
O benefício ambiental não, porém, é o único fator a influenciar a decisão.
Ao escolher a cremação verde, Judi Olmsted pensou na paixão que Klink tinha pela água e relacionou o método aquoso ao batismo, o que achou comovente.
O processo transforma os ossos em pó, que, no caso de Klink, foi depositado próximo a flores, fotos e um pato de madeira numa igreja luterana no subúrbio de St Paul, em Minnesota.

Outras motivações

A BBC perguntou à diretora de funerais da Bradshaw, Anne Christ, sobre outras razões as pessoas citavam para escolher a hidrólise alcalina.
"Há algumas pessoas com um interesse científico e, claro, interessadas no fator ambiental", diz. "Mas é mais uma questão emotiva. Eu diria que a maioria das pessoas toma a decisão com base numa intuição de que a água é mais suave."
Mas dissolver o corpo com substâncias químicas realmente é mais suave do que queimá-lo? As pessoas se dão conta de como funciona a hidrólise alcalina?
"Tem coisas que eles não sabem", afirma Christ, rindo discretamente.
O equipamento de hidrólise e as salas para acompanhar o processo foram instalados há cinco anos por um custo de US$ 750 mil (R$ 2,4 milhões).
"Poderíamos ter gastado menos", diz Jason Bradshaw, também diretor do centro. "Mas pensamos que, como éramos os primeiros na área, e um dos primeiros no país, deveríamos investir mais. Temos grupos que visitam o lugar, de instituições psiquiátricas a igrejas. Ou simplesmente de pessoas que querem ver como a máquina funciona."
Ele conduz a reportagem ao subsolo, até um cômodo circular com uma cascata tilintante. Na parede cor de ocre, há uma porta de vidro deslizante que leva a outro espaço.
Bradshaw desaparece, acende a luz no outro cômodo e abre a porta.
O equipamento de hidrólise alcalina tem 1,8 m de altura, 1,2 m de largura e 3 m de profundidade. A aparência industrial da máquina contrasta com a intensidade sombria da sala de visualização.
Não é difícil imaginar quem escolheria assistir seu parente ou amigo sendo colocado num máquina que é conhecida como "digestor de tecidos". Em seguida, Bradshaw e seu colega, David Haroldsen, movem um corpo pela porta.
O corpo - que não me foi identificado - é colocado na máquina. Bradshaw opera o equipamento por uma tela de computador - depois de trancada, a máquina se enche de água.

'Processo natural'

Formado em biologia e química, ele explica que a máquina pesa cada corpo e calcula o quanto de água e hidróxido de potássio adicionar. A solução alcalina, com um pH de 14, é aquecida a 150 °C, mas como é pressurizada, não chega a ferver.
"A hidrólise alcalina é o processo natural pelo qual o corpo passa quando é enterrado. Aqui recriamos as condições ideais para isso acontecer muito, muito mais rápido", diz Bradshaw.
Num cemitério, o processo leva décadas. No equipamento, são 90 minutos - embora o processo subsequente de enxaguamento leve mais tempo.
Depois de três a quatro horas, a porta é destrancada e o diretor funerário vê ossos molhados espalhados numa bandeja de metal. Num compartimento longe da vista, são depositados os restos líquidos dos tecidos dissolvidos.
O cômodo onde está a máquina tem um cheiro parecido com o de um lavanderia. Mas a eliminação desses resíduos e o tratamento da água ainda preocupam as pessoas.
Bradshaw seca os ossos numa secadora de roupa doméstica. "Funciona melhor", explica.
Os ossos são, então, colocados numa máquina usada na cremação regular. A diferença é que o pó resultante é mais fino e mais claro, parecido com o da farinha - e produz 30% a mais em quantidade.
Até agora, o digestor de tecido de Bradshaw processou mais de 1,1 mil corpos, quase um por dia.

Espaço para mortos

Há países, como Japão e Grécia, onde há cada vez menos espaço para enterrar seus mortos. Além disso, há impacto ambiental no solo do cemitério, e o próprio enterro exige recursos naturais.
Ativistas dizem que, nos Estados Unidos, as estruturas para armazenar os caixões usam mais de 1,6 milhão de toneladas de concreto e 14 mil toneladas de aço por ano.
Na cremação, o equivalente a 320 kg de CO2 é gerado. A menos que medidas especiais sejam tomadas, substâncias tóxicas são liberadas, como o mercúrio do preenchimento dental.
Sendo assim, como a hidrólise alcalina se compara do ponto de vista ambiental?
Para a pesquisadora Elisabeth Keijzer, que coordena dois estudos para a Organização Holandesa para Pesquisa Aplicada, o processo é muito melhor.
Ela analisa 18 parâmetros ambientais - como destruição do ozônio, mudanças climáticas e toxicidade marinha - e conclui que a hidrólise alcalina é melhor em 17 deles comparada às outras técnicas. Além disso, emite sete vezes menos CO2 que a cremação.
Mesmo que seu trabalho não chegue a considerar o método uma "cremação verde", conclui que é ambientalmente mais correto do que o enterro e a cremação tradicional.

Reportagem de William Kremer
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39998973#orb-banner
foto:https://www.ted.com/topics/death

O que o atentado em Manchester significa para a polícia e a Inteligência britânicas

Há três motivos pelos quais não havia sido perpetrado um ataque como o de Manchester desde 2005 no Reino Unido.
Primeiramente, porque um atentado dessa magnitude demanda conhecimento, o que é difícil de conseguir sem alguma ajuda. Além disso, exige muito planejamento e preparação, o que aumenta a chance de agências de inteligência descobrirem a operação e, por último, pelo fato de que as pessoas que cumprem os dois primeiros requisitos são bastante raras.
Há mais de uma década, a equipe de Assuntos Domésticos da BBC monitora todo e qualquer incidente terrorista, fracassado ou não, que chegou ao conhecimento público.
Basicamente, a maioria das pessoas que foram levadas à Justiça não seria capaz desse tipo de atentado. Muitas delas querem se tornar mártires e, por isso, falam em construir bombas.
No entanto, esses indivíduos não são inteligentes ou organizados o bastante para transformar suas fantasias em realidade ou ainda são pegos no meio do caminho por não saber esconder seus traços.
A maioria dos jihadistas desiste de um atentado a bomba nos primeiros estágios ao perceber que é muito difícil - eles podem morrer acidentalmente enquanto preparam o dispositivo.
Além disso, seu padrão de compras pode levantar suspeitas em uma farmácia local ou via internet, o que levaria a uma investigação da agência de inteligência britânica GCHQ.
Eles também podem pedir ajuda a alguém que, mesmo sem nenhuma das duas partes saber, já esteja no radar de outra agência de inteligência britância, a MI-5.

Outro caminho

Assim, como aponta o assassinato do soldado britânico Lee Rigby em 2013, quatro anos antes do ataque em Manchester, a maioria dos extremistas opta por um caminho diferente.
Automóveis e armas brancas viraram uma alternativa. Isso foi visto em 2014, quando um homem planejou um ataque a faca em Londres no dia da celebração anual do Armistício, que marca o fim da Primeira Guerra, e com o perpretado por Khalid Masood no Parlamento, em Londres, em março deste ano.
Mas enquanto facas e carros - e em menor proporção, armas de fogo - apareceram em planos terroristas recentes, ainda há pessoas que querem construir bombas para usar em lugares lotados.
Há pouco tempo, o irmão caçula do homem que planejou o ataque no Dia do Armistício se declarou culpado de tentar buscar orientação sobre como fazer uma bomba. Um de seus alvos em potencial era um show do cantor Elton John.
Considerando que a fabricação de bomba demanda conhecimento, a questão para os investigadores agora é: como o responsável pelo ataque em Manchester conseguiu esse artefato?
Há três possíveis explicações:
- Ele aprendeu com alguém como fabricá-la;
- Ele aprendeu a fabricá-la sozinho;
- Alguém lhe deu a bomba.

Explosivos sofisticados

Se ele foi ensinado a fazer a bomba, pode haver uma ligação com alguém que retornou do território sob controle do grupo autodenominado Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque.
Os extremistas do EI construíram explosivos usando o tipo caseiro de estilhaços de metal encontrado no local da explosão na Manchester Arena. A al-Qaeda também já utilizou esse material.
É pouco provável que tenha sido alguém que voltou recentemente de um campo de treinamento da al-Qaeda no Paquistão ou no Afeganistão, já que se trata de uma viagem difícil de se fazer - mas essa hipótese não é descartada.
De qualquer maneira, são explosivos sofisticados, especialmente se feitos seguindo uma receita conhecida entre extremistas.
É algo que demanda engenharia. Às vezes, o processo de fabricar uma bomba não pode ser facilmente escondido. Por exemplo: os explosivos usados nos atentados a bomba de 2005 em Londres, que mataram 56 pessoas, continham um agente químico que clareou o cabelo de um dos fabricantes da bomba, e sua fumaça mata plantas.
Logo, se ele aprendeu sozinho, como conseguiu manter segredo?
Nesse caso, isso seria uma prova do quão difícil é ficar sabendo de uma ameaça se a pessoa está agindo completamente sozinha e tomando precauções bem planejadas para evitar ser descoberta.
Não é difícil achar receitas de bomba na internet - ainda que seja um crime ter esse tipo de informação -, mas muitas delas são inúteis.
Portanto, o extremista deve ter passado um bom tempo pensando e planejando isso - o que reduz a probabilidade de ele ter agido sozinho por completo.
O terceiro cenário é o pior possível porque significaria que há um técnico em fabricação de bombas à solta no Reino Unido. Seria alguém completamente fora do radar dos serviços de segurança, que encontrou uma maneira de chegar até possíveis recrutas sem se comprometer e que, portanto, poderia agir de novo.

Pistas importantes

É basicamente um caso de caça a um homem - apesar de no momento ninguém saber com certeza quem, se é que há alguém, está sendo caçado.
A polícia acredita que conhece a identidade do agressor - mas esse é um passo muito precoce. Em 2005, levou-se dias para confirmar a identidade dos extremistas responsáveis pelos ataques.
No momento, há uma enorme operação em andamento nos prédios da Inteligência britânica. Com a ajuda da GCHQ e agências internacionais, se necessário, investigadores da MI-5 vão examinar todo e qualquer item para construir uma imagem do agressor e daqueles ao seu redor.
Equipes de busca vão procurar endereços para fazer investigações e especialistas vão começar a difícil tarefa de reconstruir o explosivo através dos restos que ficaram no local.
Cientistas forenses fazem isso com qualquer bomba encontrada. Eles podem encontrar as origens da fórmula da bomba ou detalhes sobre sua técnica de fabricação, peças fundamentais que podem dar novas pistas para encontrar possíveis extremistas.
Isso pode levar meses, mas a polícia estará em uma corrida para descobrir se é o caso de um "lobo solitário" ou de um ataque de um grupo.

Reportagem de Dominic
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40018732#orb-banner
foto:http://www.wfmynews2.com/news/nation/19-killed-after-terror-incident-at-ariana-grande-concert-in-manchester-police/441954334

Separação judicial não tira direito a receber seguro de vida de ex-cônjuge


Ainda que um casal tenha se separado judicialmente, o seguro de vida de um dos ex-cônjuges deve ser pago ao outro, em caso de morte, caso não tenha havido mudança no contrato. Por isso, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul reformou sentença que julgou improcedente a liquidação de sinistro feito pelas filhas de um aposentado após a morte da ex-mulher dele.
O homem aderiu facultativamente à "cláusula automática de inclusão de cônjuge" numa apólice de seguro de vida, de modo que, em caso de morte de sua mulher, ele ou alguém que ele indicasse seria beneficiário do capital segurado.
Na vigência do contrato, o casal se separou judicialmente, mas não chegou a se divorciar nem a constituir novo matrimônio ou união estável. A seguradora teve ciência destes fatos, assegurou o autor da ação, tanto que ambos mantiveram a "cláusula cônjuge". Após mais de uma década, a mulher morreu, e as filhas do homem abriram um "aviso de sinistro", requerendo o pagamento de indenização securitária.
A seguradora indeferiu administrativamente o pedido, argumentando que o caso não se enquadrava nas condições gerais do contrato, em razão da separação do casal. Mesmo diante da negativa de pagamento do capital segurado, a seguradora continuou cobrando o prêmio de cobertura securitária, feita diretamente no contracheque do autor.
Sentença improcedente
A juíza Nara Elena Soares Batista, da 13ª Vara Cível do Foro Central de Porto Alegre, deu razão à parte ré. A seu ver, a separação judicial extingue a sociedade conjugal, pondo fim aos deveres de coabitação, de fidelidade recíproca e ao regime de bens, conforme prevê o artigo 1.576 do Código Civil. Assim, sem sociedade conjugal, ambos não seriam mais cônjuges, na acepção do termo, há mais de 12 anos. 

A julgadora destacou que a ré só teve ciência da separação judicial do segurado quando requisitada a pagar a indenização securitária. Tal conduta, segundo ela, fere o artigo 765 do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90). Pelo dispositivo, segurado e segurador são obrigados a guardar, na conclusão e na execução do contrato, a mais estrita boa-fé e veracidade, tanto a respeito do objeto como das circunstâncias e declarações a ele concernentes.
"Nesse sentido, o autor não demonstrou ter informado à requerida [seguradora] sobre a separação judicial, não bastando para tanto a alegação de que a averbação da separação judicial é pública ou de que manteve seus dados atualizados perante o empregador (...), pois este é pessoa jurídica diversa da requerida. Por isso, a alegação de que os descontos relativos à cláusula suplementar contratada continuaram a ser realizados após a separação judicial também não é motivo para o acolhimento da demanda", fulminou na sentença, julgando a demanda improcedente.
Virada no tribunal
O relator do caso, desembargador Luís Augusto Coelho Braga, teve entendimento diferente e aceitou a apelação do autor, sendo seguido pelos demais integrantes da 6ª Câmara Cível. Para Braga, a leitura atenta do artigo 1.571, inciso III, do Código Civil, revela que a separação judicial não põe fim ao casamento, mas apenas à sociedade conjugal. "Assim sendo, evidente o direito invocado na inicial, já que o autor, apenas separado judicialmente, apresentava-se, à época do falecimento da segurada, ainda como verdadeiro cônjuge desta", complementou no acórdão.

Em reforço de sua convicção, o relator constatou que o autor não foi informado sobre a existência de cláusula restritiva de direito; ou seja, de que a superveniência da separação judicial do casal implicaria na perda de seu direito em relação ao contrato firmado. Ainda: observou que a seguradora sequer apontou a mencionada cláusula, o que implica presumir que ela não existia de fato.
"Neste passo, não há como aceitar as limitações securitárias impostas pela parte ré, sobretudo porque o pagamento do prêmio com a manutenção das mesmas cláusulas contratuais e indicação do beneficiário permaneceram incólumes após a dissolução da sociedade conjugal em questão", diz o acórdão, do último dia 11.
Clique aqui para ler a sentença.
Clique aqui para ler o acórdão.

Reportagem de Jomar Martins
fonte:http://www.conjur.com.br/2017-mai-23/separacao-nao-tira-direito-receber-seguro-vida-ex-conjuge
foto:http://franzoni.adv.br/entenda-definitivamente-divorcio-segundo-o-codigo-civil/

22/05/2017

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Conselho Federal da OAB pedirá impeachment de Michel Temer



O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil decidiu apresentar o segundo pedido de impeachment contra um presidente em menos de dois anos. No mesmo período de 2016 o colegiado debatia o afastamento da então presidente Dilma Rousseff, na reunião extraordinária no último sábado (20/5), o mandatário é Michel Temer.
Depois de anunciada a decisão, o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), que participou da defesa do presidente, disse que a OAB "escreveu uma página indigna de sua história". Ele havia pedido aos conselheiros mais prazo para analisar as provas e apresentar uma defesa prévia, o que foi negado. Para Marun, com a decisão, a Ordem "aceitou a posição de edícula do MP".
A postura da OAB também desagradou seus quadros. Alguns conselheiros, depois de saber que a decisão já estava tomada quando a extraordinária de sábado foi convocada, se recusaram a ir à sessão.
O pedido foi aprovado com 25 votos favoráveis e 1 contrário (Amapá). A bancada do Acre não participou por falta de voos até Brasília. O documento será elaborado com base na delação premiada do empresário Joesley Batista, da JBS. O executivo gravou uma conversa com o presidente em que relata crimes que cometeu e pede favores junto à alta administração pública. Por exemplo, solicita a Temer que atue junto ao ministro da Fazenda Henrique Meirelles visando a nomeação de um novo presidente do Cade.
O embasamento técnico partiu de um relatório elaborado pela comissão especial constituída para analisar o tema. "Houveram possíveis atos de intercessão em favor de particulares, demonstrando favorecer interesses privados em detrimento do interesse público", diz o grupo sobre a suposta influência sobre Meirelles.
O grupo entendeu que Temer atentou contra a moral pública ao receber o empresário no Palácio do Jaburu às 22h40. Também considerou grave o encontro não ter sido registrado na agenda oficial da Presidência e o fato de o presidente ter ouvido o relato de crimes cometidos pelo empresário e nada feito sobre esse assunto.
"Ao omitir-se de prestar informações, as quais chegaram a seu conhecimento pelo cargo que exercia, e, particularmente, pela influência que tal cargo carrega nas instituições, o Presidente da República teria incidido em ato ilegal, vez que, como servidor público, lhe é exigida conduta condizente com os princípios que regem a administração", detalha o grupo.
Mais tempo
No início da sessão deste sábado, a defesa de Temer, feita pelo advogado Gustavo Guedes e pelo deputado Carlos Marun (PMDB-MS), pediu a suspensão do processo para ter mais tempo e avaliar as provas. Os defensores também afirmam que a gravação foi editada e precisa passar por perícia no Supremo Tribunal Federal, onde corre um inquérito contra o presidente por corrupção passiva e organização criminosa.

Mas os conselheiros federais e os presidentes seccionais rejeitaram a proposta. Eles argumentaram que a discussão no Conselho Federal é uma deliberação sem valor jurídico, sendo desnecessário o prazo para apresentar mais fatos.
Os conselheiros afirmaram que Temer terá todo o processo de impeachment para se defender, e que a análise feita agora trata apenas do apoio à abertura do processo de investigação para eventual afastamento.
Mais um
O pedido de abertura de processo de impeachment da OAB se unirá a outros que foram apresentados na Câmara dos Deputados assim que os áudios das gravações feitas por Joesley Batista foram divulgados pela imprensa na última quarta-feira (17/5).

O primeiro partiu do deputado Alessandro Molon (Rede). Assim como o pedido do deputado, todos os outros apresentados usam como argumentos os áudios gravados pelo empresário da JBS.

Reportagem de Brenno Grillo
fonte:http://www.conjur.com.br/2017-mai-21/conselho-federal-oab-impeachment-michel-temer
foto:https://www.sensacionalista.com.br/tag/michel-temer/

Depressão: O segredo de todas as famílias


“Saia e conte para alguém.” Foi a resposta de Harvey Milk quando um jovem lhe perguntou como poderia ajudar a combater o estigma da homossexualidade. Quarenta anos depois, o escritor Andrew Solomon repete o conselho do ativista gay norte-americano, mas para vencer outro tabu: a incompreensão e a vergonha que cercam quem sofrem de depressão. Solomon, escritor e professor de Psicologia em Columbia, fez disso uma cruzada pessoal. E luta para romper o silêncio que acompanha um transtorno que já afeta 2,5 milhões de espanhóis – os diagnosticados, já que muitos nem sequer se atrevem a confessar o que sentem. No Brasil, 5,8% da população sofre da doença, o que representa 11,5 milhões de brasileiros, segundo a OMS.
“Há muitas causas pelas quais na Espanha 40% dos pacientes com um transtorno depressivo maior não estão em tratamento. Mas sem dúvida uma delas é o estigma.” Antonio Cano é doutor em Psicologia e catedrático da Universidade Complutense de Madri, e em seus muitos anos de prática viu como funciona o círculo vicioso da culpa. “Por um lado o paciente se isola, e por outro as pessoas não entendem o que acontece com ele: que sofre de algo que se chama depressão. O paciente não tem informação, e a sociedade muito menos. E a depressão é algo que pode afetar a todos nós.”
Andrew Solomon conhece bem esse peso. Porque também o sepultou. Em 1993, sentiu que tinha perdido o interesse pela vida. Tudo para ele era difícil. Escutar as mensagens da secretária eletrônica. Preparar a comida. Tomar banho. Uma crise de ansiedade se seguiu à depressão. E, um dia, já não conseguia se levantar da cama. Descobriu que o sinônimo de depressão não é tristeza, e sim falta de vitalidade. Mas fez tratamento e se recuperou. E decidiu estudar o que tinha lhe acontecido para ajudar os outros. Escreveu O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão (Companhia das Letras). “Sempre que alguém que sofreu uma depressão conta isso a outra pessoa, estamos rasgando a cortina do secretismo. Aqueles que se veem confinados no silêncio demoram mais a se recuperar. Devemos convencê-los a falarem, dizendo que falar pode salvar suas vidas. Porque a depressão é o segredo de família que todas as famílias têm.”
Esse segredo de família já afeta 322 milhões de pessoas no mundo. E não para de crescer. É uma das três principais causas de incapacidade no mundo. E em 2030 será a primeira. Por isso neste ano a OMS dedicou o Dia da Saúde ao lema “Falemos da depressão”. Mas falar é que é difícil.
“A bola vai ficando cada vez maior. Você está mal, e as pessoas ao seu redor não entendem. E o Andrés que todo mundo conhece está ficando vazio por dentro. Isso é duro, muito duro…” Esse Andrés que se esvaziava por dentro era o mesmo que um tempo depois encheria um país inteiro de alegria, ao marcar o gol do título espanhol na Copa do Mundo de 2010. Andrés Iniesta. Contou sua via crucis aos jornalistas Ramón Besa e Marcos López. Quando foi lançada sua biografia, La Jugada de Mi Vida, a psicóloga que o havia tratado observou um aumento nos telefonemas ao seu consultório. Ela relata que para muitos pacientes é um estímulo ver que uma personalidade que eles admiram sofre da mesma coisa.
Basta lembrar de Bruce Springsteen. Ele também se atreveu a contar em sua biografia, Born to Run, sua batalha constante contra a depressão. O professor Cano compara sua sinceridade à de Magic Johnson. “Assim como naquela época [1991] Johnson meteu as caras e, quando havia um maior estigma sobre a AIDS, disse ao mundo: ‘Tenho o vírus’, gestos como o de Bruce Springsteen podem ajudar a eliminar o estigma contra a depressão.”
“Há um ponto no qual se perde o mapa e se perde a bússola, você começa a agir a esmo. É o ponto de absoluta angústia. Aí não há nada que a pessoa racionalmente possa fazer.” Assim se sentia o escritor Luisgé Martín, como narra em El Amor del Revés. Um livro, diz ele, despudorado, com o qual arrebentou cadeados e exorcizou demônios. A culpa. A vergonha. O medo. O pesadelo de ser homossexual em uma Espanha em que isso era mais do que um pecado. A luta de passar por um processo de depressão e se sentir incompreendido. “Comprar um remédio para dormir numa farmácia é quase como antes comprar camisinhas, você ruborizava. A gente tem a sensação de que tudo o que acontece é porque você se comportou mal. Você é depressivo porque não é capaz de olhar de outro modo para a vida.”
O músico Iván Ferreiro também agiu a esmo contra a depressão, sem saber o que o atingia. Até que um ataque de pânico, na completa solidão de um apartamento em Buenos Aires, o empurrou a pedir socorro. Conta a história dando voltas. Recorda que estava havia anos sem dormir. Obrigando-se a fazer coisas que não queria. Saindo sem se atrever a olhar na cara das pessoas. Chegou a gravar um disco sem recordar depois nem como nem quando. Mas não se tratava. “Até que o médico me liga e me diz: ‘Olha, você toma um negócio para a alergia todos os dias, usa um inalador de asma o tempo todo, e está me dizendo que não quer tomar esse comprimido?” Só quando começou a compreender o que lhe acontecia conseguiu ver a saída. “Nas depressões a linguagem é muito importante. E que alguém saiba lhe explicar com palavras o que está acontecendo com você, e que você perceba que no fundo é como uma puta gripe, uma gripe de pessimismo e de falta de vontade. Mas você se cura. O principal é se render e dizer ‘Não aguento mais’”.
Exprimir a dor em palavras é o primeiro remédio. Quem passou por isso sabe. E sabe também que esse é o desafio. Lutar contra o tabu. Romper o estigma. “Aprender a viver é aprender a nomear”, diz Luisgé Martín. Aprender a curar-se é colocar em palavras o segredo de família que todas as famílias têm. A depressão. A doença que continua avançando em silêncio.
Reportagem de Marta Fernández
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/17/ciencia/1495017939_425357.html
foto:http://midiaboom.com.br/artigos-de-colaboradores/nao-seja-um-perfil-depressao-no-twitter/