10/12/16

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Criar ou agradar ou como eu quero envelhecer?

Artigo de Leandro Karnal, historiador, atualmente professor da Universidade Estadual de Campinas na área de História da América.



O estoicismo marca o início da fala. A vida é uma loteria. Os prêmios são raros. Temos de aceitar as “glórias e desdouros” da existência. O futuro está à frente do rapaz. Que profissão lhe recomenda o pai? Ser medalhão...
Há um trajeto e um projeto. Ele deve iniciar agora o esforço. Empenhado, chegará ao patamar de medalhão aos 45 anos. Há medalhões anteriores, mas são gênios raros. 
O moço tem potencial. O pai constata que ele repete nos salões as opiniões tomadas das ruas. O filho tem uma mente que absorve mais do que cria: um indício de vocação para ser medalhão. 
Ser medalhão não é tão fácil. Há práticas a seguir: ler sobre retórica e jogar dominó, por exemplo. Há que fazer passeios pelas ruas, sempre acompanhado, evitando a solidão, oficina de ideias. Na fala, o jovem deve usar figuras como a hidra de Lerna e as asas de Ícaro, conhecidas de todos (bem, pelo menos na época de Machado). Tudo deve ser para “pensar o pensado”, coloca nosso bruxo do Cosme Velho na boca do pai. O objetivo é evitar a originalidade, a ideia que incomode, a fala que fustigue o senso comum. 
Importante cuidar da propaganda e divulgar seus jantares. O pai batiza o ato de “benefícios da publicidade”. Imperioso convidar alguns repórteres para ocasiões especiais. A imagem pública deve ser controlada.
O jovem pode tentar a carreira política, mas deve centrar discursos em questões secundárias. Acima de tudo, deve evitar a imaginação na fala. O jargão deve ser repetido, desde que pareça sábio: “Antes das leis, reformemos os costumes!”, frase de consenso universal e que nada expressa. O filho deve ser um membro da política para não provocar nada na política. Eis a síntese dos conselhos: “Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade”. 
O exercício de aconselhamento é encerrado uma hora depois. O pai assegura que a conversa daquela noite tem o mesmo valor do Príncipe de Maquiavel. 
O olhar crítico de Machado disseca o procedimento da Corte e seus hábitos. Um homem de respeito, um medalhão, uma pessoa tida por sensata seria, antes de mais nada, alguém capaz de não ofender ou desafiar com algo novo. A fala escandida, o riso preciso, a seriedade nos gestos seriam condições naturais para ser um homem de sucesso, um medalhão. 
O texto da Teoria do Medalhão dialoga com outro conto, O Espelho, no qual a alma humana é apresentada de forma dupla: uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro. Dos textos emerge a dicotomia entre o homem público e o homem interno e entre a aparência e a essência, temas tradicionais em Filosofia e Teologia. 
Evoco os sábios conselhos de Polônio ao seu filho Laertes, no Hamlet. Todas as afirmativas do cortesão são boas e também tratam sobre opções pessoais. Polônio parece acreditar na ética humanista, mas não a cumpre. O pai do conto Teoria do Medalhão não acredita nos valores sociais, mas admite que são indispensáveis ao sucesso pessoal. 
As falas dialogam com nosso mundo. Somos a era da curadoria e do aconselhamento, todos mirando na eficácia da ação e na realização pessoal. Vai a uma entrevista? Não se esqueça de se vestir como todos esperam e de não tocar em pontos polêmicos.
Depois que você for contratado por ser absolutamente igual e comum, a empresa procurará palestras e workshops sobre originalidade e empreendedorismo. Vai fazer uma redação do Enem? Não adote posições extremas, pois isso pode dar nota baixa.
Depois, no curso superior, você será livre para pensar. Curiosa dicotomia que seleciona pessoas para atividades tendo como condição prévia que elas demonstrem a ação contrária ao que se deseja no exercício da função. São contradições de mundo líquido. Onde inserir o atrito? 
Ao tratar da tumultuada comunidade de Corinto, Paulo afirmava que era bom que existissem divisões no grupo, para que se tornassem manifestos os que são comprovados (1 Cor 11,19). A ideia paulina gerou a máxima latina analisada na Suma Teológica de Tomás de Aquino: Oportet haereses esse (é bom que existam hereges). Para o direito, o contraditório é o caminho para a justiça. 
Seguir os conselhos da Teoria do Medalhão embasa uma opção de vida consagrada, bem-sucedida materialmente e aceita como normal. O medalhão envelhece tranquilo. Inovar, romper, quebrar paradigmas e buscar algo que esteja além do senso comum é um esforço que tem um custo alto. O inovador vive sobressaltos e críticas e envelhece também. Resta sempre nossa escolha. 

fonte:http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,criar-ou-agradar-ou-como-eu-quero-envelhecer,10000092297
foto:https://www.mindomo.com/pt/mindmap/aspectos-principales-de-la-vejez-y-envejecimiento-b99510f3172c47c6aa0163ee88bdf9a5

O drama das meninas venezuelanas obrigadas a se prostituir para comer

Mariela (nome fictício) tem 14 anos e é integrante da tribo indígena wayuu. São 11h quando ela grita em frente a cerca de 20 caminhões estacionados nos arredores do Mercado Los Plataneros, em Maracaibo, no oeste da Venezuela: "Oferta, oferta! Leve-as por cem bolívares!".
Usa batom vermelho, short jeans justo e uma camisa do falsa do time espanhol de futebol Real Madri.
Mariela recebe 4 mil bolívares por dia para vender frutas nas plataformas onde os veículos ficam parados. Ganha menos de um dólar por dia em um país onde há, por um lado, um controle severo do câmbio, e por outro, várias cotações para a moeda americana, uma totalmente diferente da outra.
Na frente da mãe, a menina afirma que também estuda. Mas os seguranças, comerciantes e camelôs presumem que ela e pelo menos outras vinte adolescentes eventualmente exercem outro tipo de função na região central da cidade: a prostituição.
Por semana, a polícia do Estado de Zulia prende uma média de dez mulheres acusadas da prática na região do Mercado de Maracaibo.
Daniel Noguera, comandante da Polícia Bolivariana ali, afirma que quatro integrantes desse grupo costumam ser menores de idade. E que sempre há uma indígena.
Essas operações geralmente acabam com alguns conselhos e a liberação de todas elas.

Mercado 24 horas

O Mercado de Maracaibo opera ao ar livre, 24 horas por dia. Impossível não notar a sujeira e a lama em meio ao calor de 36°C dos últimos dias de outubro. Existe uma cerca, mas apenas em um dos lados.
Os caminhões entram e saem em meio ao mau cheiro. Em meio a eles, crianças indígenas perambulam vestindo trapos e pedindo esmolas.
Kelvin Rincón, vendedor de bananas, explica o que acontece.
"Essas meninas estão aqui a toda hora. É um desastre. Elas vendem café ou bananas, mas começam a te tocar, falar besteiras. Eles se relacionam com elas dentro dos caminhões."
Ilse Cruz, uma vendedora de café, diz que os programas acontecem dentro dos veículos, em pequenos apartamentos próximos do mercado ou em barracões.
Oswaldo Márquez, presidente da Associação de Comerciantes do Mercado de Maracaibo, conta que o local também é marcado pelo roubo e consumo de bebidas alcoólicas e drogas, o que envolve pelo menos cem meninos e meninas, a maioria integrante de tribos indígenas.

Diferenças culturais

Cerca de 35% dos jovens venezuelanos tem a primeira relação sexual entre os 12 e 18 anos, de acordo com estudos.
Mas na cultura wayuu não existe um período de transição entre a infância e a idade adulta e, por isso, não se pode falar de sexualidade precoce, explica o antropólogo Mauro Carrero.
Existe uma tradição entre os wayuu, chamada de "a clausura", na qual as mulheres adultas explicam para as jovens na puberdade quais são seus deveres como mulher e futura esposa.
"Para elas, a virgindade não é uma preocupação moral, como na concepção judaico-cristã. E nos dias de hoje ainda existe uma pressão adicional, que é a crise econômica", explica ele, professor da Universidade do Estado de Zulia.
Os frequentadores do Mercado de Maracaibo contam que os corpos das meninas, sejam elas wayuu ou de outras tribos, são moeda de troca para a obtenção de uma quantia que varia entre 1 mil e 2 mil bolívares (algo que varia entre 25 a 50 centavos de dólar americano segundo a taxa do mercado "negro"), algumas bananas ou qualquer outro tipo de comida.
O que é uma consequência da fome e do abandono das populações indígenas da Venezuela, afirma o deputado Virgilio Ferrer, integrante da Comissão de Povos Indígenas da Assembleia Nacional.
A Constituição do país dedica um capítulo inteiro para garantir os direitos das populações indígenas. Entre seus artigos 119 e 126, está a garantia do respeito a sua organização social, econômica e política.
Leis que não são cumpridas, diz o parlamentar.
"Há um abandono total do ponto de vista social. Há fome, desemprego e pouca educação. Até os pais dessas meninas fazem vista grossa", explicou.

Miséria

Em Zulia, que faz fronteira com a Colômbia, a desnutrição infantil chega 20%, de acordo com informações da Secretaria de Saúde.
O Censo de 2011 mostrou que existem 415 mil indígenas na Venezuela, concentrados em sua maioria nos povoados de Mara, Guajira e Almirante Padilla, onde o índice de desnutrição supera os 30% - todos ficam no Estado.
Jhonny, um homem pequeno de 54 anos que trabalha nas empilhadeiras do mercado, concorda que os problemas sociais que podem ser observados na região central de Maracaibo têm uma causa: a fome.
"Isso é horrível. Às vezes vejo as crianças comendo bananas podres que os caminhoneiros jogam fora."
Pesquisas da Universidade do Estado de Zulia, como a da socióloga e professora Natalia Sánchez, revelam que a pobreza atinge cerca de 80% dos 3,7 milhões de habitantes da região.
"Há dez anos esse indicador estava em 55%. E hoje mais de 35% dessa pobreza geral é extrema."
Órgãos de Estado, como a Fundação Niño Zuliano e o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, realizam operações no mercado. Mas as casas de abrigo onde o governo hospeda os menores com as piores situações não conseguem dar conta da demanda.
Jonathan Perozo, advogado do Conselho Municipal do Direito da Criança, admite que os casos como os do mercado testam a capacidade das instituições venezuelanas.
"Somos limitados no que diz respeito a ferramentas de trabalho. O orçamento é baixo, faltam verbas."

Duas cervejas

No mercado, dois homens de mais de 40 anos falam abertamente sobre a situação em frente a um local que vende suco de laranja a 300 bolívares o copo - menos de um centavo de dólar.
Eles comentam sobre uma jovem que passa usando uma minissaia.
"Convidei esta menininha e ela aceitou. Tem 15 aninhos. Levei para o Gran Bazar - um centro comercial aqui perto -, ofereci duas cervejas e disse 'venha'."
Os dois riem do crime.
Mariela, a jovem wayuu com a camiseta do Real Madrid, garante que não se prostitui. A risada de outra adolescente interrompe sua fala.
A adolescente brinca com um jovem em cima de um dos caminhões. Enquanto isso, outra menina coloca metade do corpo na cabine do mesmo veículo, deixando a porta entreaberta enquanto negocia um encontro com o motorista.
Mariela se aproxima e fala mais alto, mas não oferece seu produto, como estava fazendo antes. Desta vez, ela avisa as amigas sobre a presença da imprensa.
"Oi! Cuidado, vocês não sabem quem está vendo vocês!"
A adolescente ri e brinca com as outras meninas antes de reforçar sua fala.
"Há algumas que fazem isso sim... Mas eu não sou dessas."

Reportagem de Gustavo Ocando Alex
fonte:http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38183602#orb-banner
foto:http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2016/05/internacional/499874-manifestantes-anti-maduro-enfrentam-policia-em-caracas.html

‘Aedes’ passa chikungunya em 7 de cada 10 picadas


Chikungunya tem um potencial para provocar epidemia maior e mais grave do que todas as que foram causadas pela dengue no País até hoje. O vírus é mais agressivo, se espalha de forma mais rápida, é suspeito de causar mais mortes e, a exemplo do zika, pode ser transmitido da mãe para o feto durante a gestação, afirmam especialistas ouvidos pelo Estado. “Há ainda muitas perguntas a serem respondidas, mas não há dúvidas de que a epidemia por esse agente pode provocar estragos até então nunca vistos com a dengue”, diz o epidemiologista André Ricardo Ribas Freitas, da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose.
Dados preliminares da mortalidade em Estados atingidos pela chikungunya neste ano indicam uma mudança no patamar das taxas de mortalidade, afirma Freitas. Se comprovado, esse aumento deverá repetir um padrão que já foi identificado em outros lugares que também tiveram epidemia de chikungunya, como Ilhas Maurício, Reunião e Ahmedabad, na Índia. No caso da Ilha Reunião, foram identificados 33 casos a mais de mortes, a cada 100 mil habitantes. “Quando chikungunya chegou ao Brasil, em 2014, o que se dizia era que o vírus era menos letal do que dengue. A experiência mostra o contrário”, completa o epidemiologista.
O professor da Universidade Federal de Pernambuco, Carlos Brito, tem avaliação semelhante. “O cenário é muito preocupante. Sobretudo em razão do potencial de mortes provocadas pela doença.” No Estado de Brito, Pernambuco, foram relatados até o momento 369 casos de mortes associadas a arboviroses (aí incluídos dengue, zika e chikungunya). Dos registros suspeitos, 145 foram investigados e em 110 foi identificada a presença do chikungunya. O número supera em muito a maior marca contabilizada em Pernambuco, em 2013: 37 óbitos.
“Em outros países, as taxas de morte são de 1 caso para cada 1 mil pessoas doentes”, diz Brito. Pode parecer pouco, mas não diante do potencial de ataque da doença. “Em todas as comparações que são feitas com dengue, o chikungunya se mostra mais agressivo”, completa. A começar pela rapidez na transmissão.
Aedes aegypti apresenta comportamento diferente para transmissão de chikungunya, dengue e zika. O tempo de incubação (o período entre o mosquito ter contato com o vírus e ser capaz de transmiti-lo) é menor no caso da chikungunya, quando comparado com dengue. O mosquito leva em torno de 6 a 11 dias para passar a transmitir dengue. No caso do chikungunya, bastam de dois a cinco dias. “Isso faz com que a velocidade da expansão da epidemia seja muito mais rápida do que a de dengue”, conclui o epidemiologista.
Além de um período de incubação menor, o chikungunya é transmitido com maior facilidade do que dengue. O Aedes aegypti não transmite o vírus em todas as picadas. Em palestra dada no Ministério da Saúde, a pesquisadora do Laboratório de Doenças Febris Agudas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Patrícia Brasil, afirmou que o mosquito transmite o chikungunya em 70 a cada 100 picadas realizadas. Uma eficiência impressionante, quando comparada com a que ele apresenta para dengue (40 infecções a cada 100 picadas) e para zika (20 infecções a cada 100 picadas). “Isso também aumenta o risco de expansão da epidemia”, disse a pesquisadora.
Suscetibilidade. Para completar, a chikungunya provoca mais sintomas do que dengue. “Cerca de 30% dos casos de dengue são sintomáticos”, conta Brito. Para chikungunya, a estimativa é de que 90% dos pacientes apresentem sintomas. Dos afetados, cerca de 25% desenvolvem a forma crônica da doença. 
“Daí a necessidade de se prevenir contra a infecção”, afirma Brito. Ele observa que, ao contrário do que ocorre com dengue, a maior parte da população brasileira é suscetível ao chikungunya. “Há um grande número de pessoas sob risco.” Patrícia concorda. “O fato de ter uma população inteira que nunca teve contato com o vírus aumenta muito o risco de uma epidemia de grandes proporções.”
O chikungunya chegou ao Brasil em 2014 e, contrariando previsões de que rapidamente se alastraria, provocou surtos localizados na Bahia. Aos poucos ele foi se pulverizando e atualmente está presente em 41% dos municípios brasileiros, em todos os Estados do País. A epidemia já castiga o Nordeste. Em 11 Estados, o número de casos da doença é superior a 80 casos por cada 100 mil habitantes. No Rio Grande do Norte, a proporção é de 702 casos por 100 mil. 
Gestante. A transmissão do chikungunya da gestante para o feto ocorre geralmente nos últimos três meses de gestação. “Daí a necessidade de a grávida se proteger contra picadas do mosquito durante todo o pré-natal. Não apenas nos primeiros três meses”, diz Brito. 
A transmissão da mãe para o bebê fora do período inicial da gravidez não provoca má-formação. O bebê, no entanto, pode nascer com problemas graves de saúde, causados principalmente pela ação do vírus no sistema nervoso. 

Reportagem de Lígia Formenti
fonte:http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,aedes-passa-chikungunya-em-7-de-cada-10-picadas,10000093619
foto:http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/dia-a-dia/noticia/2015/12/aedes-aegypti-saiba-como-o-mosquito-mais-temido-da-atualidade-surgiu-no-brasil-4928429.html

Educação de Portugal é a única da Europa que melhora a cada ano


Nem a bancarrota do país nem a queda dos salários dos professores nem o aumento do número de estudantes por classe. Nada. O período econômico mais sombrio de Portugal neste século não interrompeu a melhora contínua de seu sistema educacional. Se a troika – FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia – socorreu o país de 2011 a 2014, o relatório educacional PISA 2012-2015 mostra que Portugal é o único país europeu que continua a melhorar a sua educação desde o começo deste século.
“Quer que eu explique o milagre?”, pergunta ironicamente Fátima Rodrigues, diretora da Escola Secundária de Miraflores, em Oeiras, na periferia de Lisboa. “O milagre é o esforço em língua portuguesa e em matemática. O português é o veículo de toda a informação e de todas as disciplinas”.
O PISA é um programa internacional de avaliação de estudantes focado em matemática, leitura e ciências e que se realiza a cada três anos em 70 países. Portugal participa dele desde 2000. É o único país da Europa que vem melhorando o seu desempenho a cada ano. Os resultados dos 8.000 portugueses de 15 anos de idade que participaram do estudo colocaram Portugal na 17ª posição dentre os países da OCDE em ciências, 18ª em leitura e 22ª em matemática. Mas, se se consideram apenas os resultados dos alunos do décimo ano (ou seja, sem contar os repetentes), Portugal seria o segundo do mundo em ciências, atrás apenas de Cingapura.
Rodrigues aponta também outros segredos para explicar o milagre: “Muito apoio ao aluno. Desde os 6 anos de idade, o estudante recebe reforço em matérias centrais. O professor dedica mais tempo a esclarecer as dúvidas”.
Na escola de Oeiras, é hora do almoço, e as crianças entram e saem com seu sanduíche nas mãos. Guillermo tem 15 anos e optou pela área de Economia. Nunca foi suspenso e gosta do colégio, embora não aprecie matemática. “Escolhi alguma coisa que tem futuro. A área de humanas não tem futuro. Ciências e Tecnologia são muito difíceis, então fiquei com Economia”. Não existe área de Arte da escola.
José Manuel é professor de Filosofia. Nos últimos três anos, o Estado diminuiu seus salários em cerca de 10%, redução que não interferiu nos resultados do PISA. “O que podemos fazer? O professor precisa continuar a trabalhar, a preparar bem as aulas, os seus textos. Os alunos não devem pagar por essa redução”.
Os bons resultados de Portugal continuam a acontecer apesar do progressivo corte de despesas com Educação. No ano 2000, quando se iniciaram as avaliações do PISA, Portugal gastava nesse setor o equivalente a 4,8% do PIB. Em 2011, o plano de resgate da troika desembarcou no país, e essas despesas caíram para 4,5% do PIB. Em 2015, a taxa caiu para 3,8%.
Na sala dos professores do Miraflores, reúnem-se professores de diversas áreas. “Outro fator para a melhoria da educação”, assinala a diretora Rodrigues, “é o trabalho colaborativo. Não uma articulação vertical, dos professores da mesma disciplina em todos os anos, mas a articulação horizontal, que é a mais difícil, a coordenação de todos os professores de um mesmo ano”.
De acordo com um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o professor de Portugal é o que mais tempo dedica à preparação das aulas e o recém-formado mais bem pago na função pública, ao lado dos professores da Espanha. No primeiro ano, ele recebe de 20% a 30% a mais do que um médico ou um juiz.
É impossível ouvir alguma crítica aos professores. Francisco, Andrea, Beatriz e Thiago falam bem de todos eles. “Se preocupam conosco, se adaptam às nossas necessidades”, diz Francisco, que tira sempre boas notas. Sua afirmação coincide com os resultados do PISA: o aluno português é o que mais elogia os seus mestres. “Talvez seja porque somos muito afetivos”, explica Rodrigues. “Estamos muito próximos deles. Somos mestres, amigos, pais, psicólogos...”
Entre o exame do PISA e a divulgação de seus resultados, deu-se uma drástica mudança em Portugal. O Governo de centro-direita (2011-2015) foi trocado por um socialista.
Assim que assumiu o posto, o novo ministro responsável pela Educação, Tiago Brandão, suspendeu os exames de 6º ano e de inglês, um sistema que qualificou de “nocivo” e “pernicioso” porque “o aluno se prepara para os exames”.
Assim como ocorre em outros países, Portugal tem o vício de uma mudança de Governo vir sempre acompanhada de uma mudança no sistema educacional. “Todos querem deixar a sua marca”, observa a diretora do Miraflores. “Tenho 38 anos de profissão, muitos governos se passaram, mas nós continuamos aqui. Eles fazem o que querem, e nós também. É aqui, na sala dos professores, que se decide o que é melhor para o aluno, e somos nós, os professores, que decidimos”.
Embora possa parecer estranho, o estudante Guillermo, que não gosta de matemática, é favorável à realização dos exames. “É uma forma de nos preparamos para o futuro. De saber se estamos indo bem”.
O professor de Filosofia José Manuel acredita que o exame cria um vício educacional. “O professor ensina para o exame, o aluno estuda para o exame. Ele é o objetivo; obriga a que se cumpra todo o programa, e, se faltar tempo, deixam-se de lado outras atividades, projetos comuns, horas de laboratório... Privilegiam-se as disciplinas que caem nos exames, como aconteceu com língua portuguesa e matemática, que eram as apostas do Governo anterior, prejudicando o restante”.
A diretora do Miraflores tem uma posição ambígua. “Sou do Partido Social Democrata [PSD, de centro-direita], portanto não sou suspeita por criticar o anterior Governo, que impôs esses exames. A verdade é que nós, professores, fazíamos o que queríamos, aquilo que fosse melhor para o aluno. Não íamos acabar com um aluno bom só por ter ido mal em uma prova que valia 30% da nota final. Também é verdade, por outro lado, que o estudante se envolve nessa competição pela melhor nota, e o colégio não quer ficar atrás dos outros, e os pais querem ver de forma objetiva como seus filhos estão avançando... Mas, pedagogicamente, a bandeira do exame é uma bandeira antiga”.
O sucesso alcançado por Portugal tem seus matizes, e cada um destaca aquilo que lhe convém. Enquanto o ex-primeiro-ministro Passos Coelho (PSD) se prende aos dados mais positivos, o novo ministro da Educação (do PS) destaca os negativos. “Espero que o ministro reveja algumas decisões que tomou”, observa Passos Coelho.
O que preocupa o ministro Tiago Brandão é o alto índice de repetentes. “Mais de 30% dos jovens com 15 anos de idade repetiram algum ano. Somos um dos três países da OCDE com maior quantidade de repetentes, triplicamos a média, e isso tem custos subjetivos, simbólicos e sociais brutais”.
O PISA avalia alunos de 15 anos independentemente do ano que estejam cursando. Isso significa que acaba penalizando países que têm muitos repetentes. No caso dos portugueses, 40% dos avaliados não chegaram ao décimo ano, que é o ano de referência. Se baixasse para a média da OCDE, que é de 13%, Portugal seria o segundo país do mundo em leitura (atrás de Cingapura), o terceiro em ciências (atrás de Cingapura e Japão) e o sexto em matemática.
A Associação dos Professores de Matemática (APM) se congratula pelo sucesso, mas avalia que os melhores dias já ficaram para trás. “As mudanças curriculares na área da matemática já mostram sinais preocupantes”, afirma a entidade em nota. Susana Moura, formada em língua portuguesa, que abandonou o ensino mas acompanha a situação a partir de seus dois filhos, fica surpresa com os resultados do PISA. “O ensino piorou, os alunos se dedicam ao ‘copia e cola’ da Internet, e os professores precisam apresentar resultados. O estudante não aprende a relacionar diferentes áreas de conhecimento”.
Outro milagre português é o de que a melhora educacional não se deu à custa das classes menos favorecidas ou dos imigrantes. Em nove anos, o país diminuiu em três vezes a diferença entre um estudante nativo e um imigrante, de 59 pontos para 17, quando a média da OCDE é de 43 pontos. Os estudantes portugueses pobres obtêm os melhores resultados, segundo o relatório. E o trabalho nessa direção continua: no próximo ano, todos os livros de texto no Ensino Geral Básico serão gratuitos.


Reportagem de Javier Martín
fonte:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/08/internacional/1481200752_446018.html
foto:http://autonoleggio-blog.it/i-tesori-del-portogallo

09/12/16

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Regulamentação do lobby é aprovada pela CCJ da Câmara dos Deputados


Projeto de Lei 1.202/07, que regulamenta a atividade de lobby junto ao setor público, foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados na última quarta-feira (7/12). O texto será votado pelo Plenário da Casa e, depois, seguirá para o Senado.
A proposta aprovada pela CCJ define a atividade como “representação de interesses nas relações governamentais”. Para separá-la de qualquer outra atividade, o texto frisa que esses agentes pretendem modificar legislações ou projetos em análise no Legislativo. Além disso, as audiências com parlamentares ou agentes governamentais devem ser registradas formalmente em agendas públicas.
A regulamentação valerá também para assessores parlamentares que representam os Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Junto com o direito a credenciamento e acompanhamento de reuniões públicas, os lobistas devem se cadastrar e sempre identificar a entidade ou empresa a que pertencem.
A proposta caracteriza como crime de improbidade o recebimento de presentes ou vantagens por agentes públicos, mas não fixa um valor a partir do qual possa ser imputado esse crime. Já o recebimento de brindes, prática comum no lobby, não caracterizará crime.
Pessoas que tenham sido condenadas por corrupção, tráfico de influência ou improbidade não podem ser cadastrados como lobistas. Já os servidores ou parlamentares que tenham sido membros de determinado órgão público poderão fazer lobby na mesma instituição.
A proposta prevê que o lobista se afaste quando houver conflito de interesse, como definido pela Lei 12.813/13. O texto aprovado é o terceiro substitutivo apresentado pela relatora, deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), após negociações com vários partidos e entidades que representam o setor de lobby. O autor do PL é o deputado Carlos Zarattini (PT-SP). 

fonte:http://www.conjur.com.br/2016-dez-08/ccj-camara-deputados-aprova-regulamentacao-lobby
foto:http://brasilescola.uol.com.br/politica/lobby.htm

Girafas entram para a lista de animais ameaçados de extinção


população mundial de girafas sofreu redução de 40% nos últimos 30 anos, passando de 155 mil em 1985 para pouco mais de 97 mil em 2015. A enorme queda no número de girafas foi impulsionada por perda de habitat e caça ilegal, e a espécie foi classificada como “vulnerável” na ListaVermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).
O estado de conservação das girafas era, até agora, considerado de "menor preocupação" pela IUCN. Com a atualização da Lista Vermelha, divulgada hoje (8) na 13ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB COP13) em Cancún, no México, a espécie passou a receber especial atenção. As girafas entraram para a lista de vulneráveis porque em três gerações a população diminuiu mais de 30%.
A caça ilegal, a diminuição dos territórios dos seus habitats naturais, a expansão da agricultura e da mineração, o aumento do conflito entre humanos e animais selvagens e a agitação civil estão empurrando os mamíferos de longos pescoços para a extinção.
A Lista Vermelha da IUCN inclui 85.604 espécies, das quais 24.307 estão ameaçadas de extinção. A lista incluiu 742 novas espécies de aves reconhecidas e 11% delas estão ameaçadas de extinção. O número total de aves avaliadas atingiu 11.121 espécies.
A atualização das informações também incluiu avaliações de plantas como aveia, cevada, manga e outras espécies silvestres. Essas plantas são cada vez mais essenciais para a segurança alimentar da população mundial, porque sua diversidade genética pode ajudar a melhorar a resistência das culturas à doença, à seca e à salinidade.
"Esta atualização da Lista Vermelha da IUCN mostra que a escala da crise de extinção global pode ser maior do que pensávamos. Os governos reunidos na Cúpula da Organização das Nações Unidas sobre a biodiversidade em Cancún têm a responsabilidade de intensificar seus esforços para proteger a biodiversidade do nosso planeta - não apenas por sua própria causa, mas por imperativos humanos como segurança alimentar e desenvolvimento sustentável", afirmou o diretor-geral da IUCN, Inger Andersen, em comunicado à imprensa.

fonte:http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2016/12/08/girafas-entram-para-a-lista-de-animais-ameacados-de-extincao/
foto:http://planetasustentavel.abril.com.br/planetinha/bichos/tudo-ou-quase-tudo-sobre-as-girafas-866683.shtml